Arquivos - Página 2

  • v. 4 n. 2 (2013)

    As primeiras palavras não são, necessariamente, as mais importantes. Ainda assim, cabe a elas ditarem a continuidade e o ritmo da leitura. Aqui temos o privilégio de convidá-los à leitura de mais este número da revista Inquietude, fruto de uma seriedade inerente ao universo da pesquisa acadêmica aliada à efervescência de jovens pesquisadoras/es na área da filosofia. Compromisso que gera, naturalmente, resultados os mais satisfatórios. Lembramos que, recentemente, obtivemos a qualificação Qualis B5 - o que dá mais importância e notoriedade à revista - isto fomenta o interesse com o qual nos procuram estudantes de filosofia de várias partes do país.

    Nessa edição contamos com oito artigos, uma seção dedicada à Semana de Filosofia, duas entrevistas [respectivamente por Willian Bento Barbosa e Nádia Junqueira Ribeiro] com importante pesquisador/a em Hannah Arendt – Adriano Correia e Yara Frateschi – além da parte destinada à divulgação dos resumos de monografias e dissertações de discentes que concluíram o bacharelado e o mestrado em filosofia na UFG. Na capa temos uma criação de Andréia Ferreira - graduada em filosofia - representando o disforme. Uma contradição a princípio, pois os textos devem se enquadrar em uma série de exigências formais para sua submissão e consequente veiculação. Contudo, não há formalidade que impeça que o disforme surja como uma inquietação no próprio conteúdo daquilo que é escrito. Não raras vezes, disforme é o que encontramos como pensamento filosófico, se comparado ao mundo que nos cerca. Mas que outra opção teríamos a partir de um contexto tomado pela passividade em que o perverso do real estranha menos que uma deformidade do pensamento?

    No artigo inicial A gênese antropológica da religião em Ludwig Feuerbach [de Felipe Assunção Martins] temos uma reconstrução teórica da origem humana de Deus, bem como uma crítica acerca da alienação religiosa. O artigo nos ajuda a pensar em como a verdade antropológica de Deus e da religião, segundo Feuerbach, tem como princípio uma teoria da consciência e essência humanas. O filósofo compreende o homem enquanto ser consciente de seu gênero.

    Em A relação entre sentimentos e o estudo da moral [de Ana Gabriela Colantoni] o/a leitor/a vai se deparar com diferentes perspectivas filosóficas acerca da noção de prazer, e como as ações que proporcionam o prazer se relacionam com as questões morais nas obras de Aristóteles, Kant e Mill. Em seguida, a contribuição dos filósofos alemães Hegel e Nietzsche para a instauração de um ethos cristão, e as características que conduzem a filosofia hegeliana a uma filosofia de plenitude, é o tema do nosso próximo artigo [de Adilson Felicio Feiler], intitulado O ethos cristão em Hegel e Nietzsche a partir dos conceitos de “destino” e “amor”.

    Já em Das artes de governo de espírito cativo: Pontos de encontro entre Nietzsche e Foucault [de Walquiria Pereira Batista] temos um estudo que aponta uma possível aproximação dos pensamentos de Friedrich Nietzsche e Michel Foucault quanto à constituição do Estado moderno e de um novo sujeito. Enquanto Foucault analisa o surgimento das artes de governo tendo como viés a construção da subjetividade moderna, Nietzsche pensa o conceito de espírito cativo em que o indivíduo, em busca de uma suposta paz, seria forjado pela modernidade.

    Embora a ontologia de Paul Ricouer mantenha o agir humano como centro, existe uma tentativa de se manter plural, no que diz respeito aos mais diversos modos de dizer o si. O caráter especulativo de sua ontologia, bem como o direcionamento de entendimento da manutenção de si a partir da relação com a alteridade está presente no artigo A ontologia do agir de Paul Ricoeur: Alteridade e pluralidade [de Sabrina Ruggeri]. Já o artigo Uma fenomenologia da existência: Sobre A dúvida de Cézanne de Maurice Merleau-Ponty [por Luana Lopes Xavier] tem por objetivo analisar a proposta da pintura de Cézanne, bem como a relação existência-arte presente em sua obra à luz do pensamento de Merleau-Ponty.

    O momento histórico de revitalização do pragmatismo americano e as decorrências desse movimento acrescido do instrumental linguístico da filosofia pós-analítica é tratado em A revitalização do pragmatismo americano na década de 1970: A virada pragmático-linguística de Richard Rorty [por Flávio Oliveira]. E, por fim, temos o último artigo dessa seção intitulado Sobre a perenidade da exceção: O caso do estado de Goiás [por Pedro Penhavel]. No presente artigo o autor se apropria de conceitos da filosofia política de Walter Benjamin e Giorgio Agamben e da análise de sociólogos como Francisco de Oliveira e Loïc Wacquant para tratar a questão da supressão de direitos fundamentais e a escalada da violência policial em Goiás durante o período pós-ditadura militar.

    No espaço destinado à Semana de Filosofia temos o artigo Arte e política no pensamento de Jean-François Lyotard [de Rafael Silva Gargano]. No presente texto, o/a leitor/a da Inquietude será levado/a a compreender as raízes das discussões estéticas presente na filosofia de Lyotard, bem como seu desconforto pertinente à teoria marxista de sua época. Tal desconforto, diga-se, é fundamental para a compreensão da relação que o filósofo estabelece entre arte e política, evidenciadas no ensaio Notas sobre a função crítica da obra de arte, publicado em 1970. Em A teoria da vontade de poder enquanto caráter da existência [por Eder David de Freitas Melo] podemos observar que, na concepção nietzschiana que trata do mundo, e tudo o que nele há, é tão somente vontade de poder. Dentro desta perspectiva, o artigo nos traz uma análise de alguns aspectos desta teoria da vontade de poder, contribuindo, assim, para compreendermos como o filósofo alemão - Friedrich Nietzsche - se utiliza de um mesmo arranjo conceitual para qualificar toda a existência.

    Esperamos que a leitura até agora tenha motivado nossas/os leitoras/es para que prossigam através dos textos aqui veiculados. Ainda aproveitamos para agradecer a todas as pessoas que nos submeteram textos para avaliação. A quem não teve o texto publicado, pedimos para que considerem o retorno dado através dos pareceres, para que possam, em momento oportuno, enviar-nos novamente para possível veiculação. A todas/os as/os professoras/es da Faculdade de Filosofia e do Curso de Filosofia do Campus de Goiás o nosso agradecimento pelo incentivo e por toda colaboração a nós destinada. Às/os professoras/es que se ocuparam de nos fornecer pareceres externos, queremos salientar que este número não seria possível sem o rigoroso trabalho que envolve a realização de seus pareceres. À equipe editorial – acrescida agora pelos discentes Eder David de Freitas, Regis Lopes e Samarone Oliveira – pelo constante envolvimento e dedicação.

    Não poderíamos deixar de nos dirigir ao Grupo de Estudos em Biopolítica da Faculdade de Filosofia da UFG que nos concede espaço para o lançamento desta edição no IV Colóquio de Biopolítica e, mais que isto, tem colaborado para promover nossa revista incentivando a publicação de textos apresentados nos colóquios realizados pelo Grupo, como é o caso do Dossiê Biopolítica publicado na edição (v. 3, n. 2) de 2012. Reforçamos, ainda, o convite para a submissão dos trabalhos apresentados neste colóquio para avaliação e publicação no próximo número, a ser lançado em julho de 2014.

    Reportando-nos novamente ao belíssimo trabalho que aparece como capa desta edição, esperamos que a expectativa da inquietação possa nos impulsionar como aqueles que não se formalizando de imediato com um mundo que nos é dado, anunciam o disforme contido nos questionamentos que ora nos incomodam.

    E, por fim, um agradecimento, insuficiente, a uma pessoa muito especial, um artista, um criador não só de significativas e inquietantes belezas artísticas: Pedro Labaig. Mesmo depois de ter concluído o curso de Filosofia na UFG, ele continuou sendo o responsável pelo árduo trabalho de cuidar da arte final e da diagramação da Inquietude. À distância, em Paris, em meio à pintura de seus belos quadros e do seu mestrado em Filosofia, ele se manteve entre nós com seu modo colaborador, participante, responsável, um gentleman, como sempre se mostrou. Como parte muito pequena do nosso agradecimento, tentaremos agora andarmos com nossas próprias pernas, para desencarregar o Pedro de mais esta tarefa. Contudo, por sua grandeza, ele já se fixou na memória da nossa revista.

     

    A Edição

  • v. 4 n. 1 (2013)

    Com alegria e entusiasmo damos à luz a sétima edição da Inquietude. A pintura do surrealista catalão (Miró), na capa, ilustra a maternidade. Nesta edição, a figura materna que homenageamos é nossa queridíssima Júlia Sebba Ramalho Morais, editora executiva da Revista e docente no curso de Filosofia do campus da Cidade de Goiás (UFG). Em clima de fecundidade e nascimento a Inquietude celebra a abertura do seu quarto ano de atividade. A fecundidade se mostra na inquietação das/os estudantes, pesquisadoras/es, professoras/es e colaboradoras/es em geral, que contribuíram e contribuem para que a Revista se consolide como um valioso e qualificado meio de comunicação dos esforços filosóficos emergentes no cenário nacional. Este número conta com oito artigos, uma resenha e uma tradução inédita das Correspondências de 1643 entre Descartes e Elisabeth. A última seção é dedicada à publicação da última parte de Uma história heroica da modernidade: Comentários sobre O Eu impertinente de Josef Früchtl, fruto do trabalho coordenado pela professora Carla Milani Damião (UFG) em conjunto com estudantes do Grupo de Estudos Kinosophia.

    Os artigos que compõem a primeira seção abrangem a pluralidade de perspectivas encontradas nas diversas linhas de pesquisa filosófica. Em Caminho rumo à universalização: A busca de paz social em Eric Weil, o autor [Daniel Artur Emidio Branco] nos apresenta as discussões desse filósofo francês (de origem alemã) do início do século XX, ainda muito pouco conhecido no Brasil, abordando temas fundamentais para os debates da filosofia moral e da filosofia política: o problema do mal, a violência, a sociedade, o Direito.

    Já no artigo A felicidade segundo Sêneca [por Daniel Carvalho da Silva], temos os ainda atuais conselhos e ensinamentos morais do filósofo estoico para se alcançar a tão almejada felicidade. Em Os relâmpagos da fatalidade: Reflexões sobre o trágico a partir de Nietzsche e Shakespeare [por Eduardo Carli de Moraes] temos um exemplo da sempre esperada e rica relação entre filosofia e literatura com a análise de dois notáveis autores para a compreensão da dimensão trágica da vida humana. Com Espírito e consciência na Fenomenologia do espírito de Hegel [por Leonardo Araújo Oliveira] o leitor é conduzido ao universo hegeliano da subjetividade. A trama conceitual do texto perpassa as etapas sucessivas da consciência e a constituição do espírito em direção ao Absoluto.

    Em meio aos dilemas éticos que surgem diante do inevitável avanço da ciência e tecnologia, a questão da construção de uma nova ética baseada no conceito de responsabilidade desponta. No horizonte desta concepção, a presente edição traz o artigo A convergência das responsabilidades parental e política na teoria ética de Hans Jonas [por Mayra Rafaela Closs Bragotto Barros Peterlevitz], discutindo o valor ético da responsabilidade em face às relações entre pais e filhos, e do homem público e sua comunidade. O elo entre interesse particular e violência é o ponto central da discussão em O homo oeconomicus e o estado de exceção. O autor [Guilherme de Freitas Leal] traça um interessante paralelo entre o conceito de Homo oeconomicus em Foucault e a ideia de exceção na filosofia de Giorgio Agamben.

    Ao se deparar com Disciplina, controle e as novas servidões e sujeições do capitalismo [de Vladimir Moreira Lima Ribeiro] a relação entre capitalismo e subjetividade na atualidade se revela. A consolidação do capitalismo como sociedade disciplinar e seu funcionamento através do biopoder é tema trabalhado tendo como plano de fundo Michel Foucault. A mutação sofrida pelo capitalismo, que culmina na consolidação de uma sociedade de controle, e sua relação com os processos de subjetivação, é discutida através das contribuições de Gilles Deleuze. Ainda no campo da filosofia política contemporânea, Pensar o acolhimento: Uma leitura da filosofia de Jacques Derrida [por Pedro Fornaciari Grabois] apresenta um diálogo de Derrida com Emmanuel Levinas, donde se reflete sobre as noções de hospitalidade, acolhimento, cosmopolitismo, e mais, em conexão com a questão filosófica da alteridade.

    Na presente edição contamos, ainda, com a resenha do livro Filosofia francesa, de François Cousset. O autor [Vinicius Oliveira Sanfelice], inicialmente, narra o contexto inusitado e irônico em que surgiu a discussão sobre uma filosofia francesa homogênea. O resultado é um profuso e enriquecedor debate filosófico contemporâneo à luz dos conceitos de desconstrução, uso e contexto.

    Ainda em cenário francês, mas sob a atmosfera filosófica do século XVII, o leitor terá a oportunidade de ler em primeira mão a inédita tradução do inglês [por Marcelo Fischborn] de parte do texto das Correspondências de 1643 entre Descartes e Elisabeth elaborada pelo respeitado intérprete Jonathan Bennett. A tradução tem significativo valor didático por apresentar o conteúdo filosófico das correspondências.

    Caminhando para o fechamento, encontramos a terceira parte da publicação especial coordenada pela professora Carla Milani Damião (UFG) conjuntamente com os estudantes do Grupo de Estudos Kinosophia, intitulada O Eu híbrido, Nietzsche, Foucault, a pós-modernidade e o filme de ficção científica, que tratará rica e longamente da relação existente, por exemplo, entre o conceito de Übermensch em Nietzsche e a constituição do herói no gênero da ficção científica. Esta é a última parte da série especial Uma história heroica da modernidade: O Eu impertinente de Josef Früchtl relativa ao curso ministrado pelo Professor Josef Früchtl em agosto 2011 na Faculdade de Filosofia da UFG. O curso, baseado no livro O Eu impertinente: Uma história heroica da modernidade de Früchtl, foi traduzido e discutido pelo Grupo de Estudos Kinosophia.

    O convite para inquietar-se visitando o corpo de escritos da edição não pode vir desacompanhado de agradecimentos àquelas/es que tornaram possível este nascimento. Agradecimentos especiais a Fábio Ferreira de Almeida (UFG) e Carmelita de Freitas Felício (UFG), que renovam e trazem fôlego à Revista. Com o afastamento de Júlia Sebba Ramalho o lugar de editor executivo foi gentilmente ocupado por Fabio Ferreira de Almeida, que não mediu esforços na realização dos preparativos. Carmelita de Freitas Felício acompanhou os movimentos incipientes da Revista e continua a vitaliza-la com suas contribuições. Em se tratando de renovação, cumprimentamos com boas-vindas Felipe Assunção Martins e Ithana Grasciela Macêdo Barbosa, os mais novos membros da Equipe Editorial. Aproveitamos para saudar todos aqueles que contribuíram de alguma forma, para além dos membros da Revista, como é o caso de Andréia Ferreira, Rayani Melo e Frederico Assunção Martins que ajudaram na fabricação dos marca-páginas que circularão a partir de nosso lançamento.

    Em ritmo de celebração e nascimento, fechamos parabenizando o curso de Filosofia da Universidade Federal de Goiás pelo seu aniversário de 50 anos. Neste cinquentenário da FaFil é aberta a primeira turma de doutorado, atestando as conquistas e presenteando os esforços da comunidade acadêmica. Que o berço da Inquietude continue a gerar luz.

    Os inquietos podem aquietar-se e os quietos, inquietar-se, para tal – boa leitura!

     

    A Edição

  • v. 3 n. 2 (2012)

    A Inquietude tem o prazer de anunciar o lançamento de sua quinta edição. Mais um número tomado forma demonstra o contínuo desenvolvimento ao compromisso firmado desde as raízes do projeto editorial. Desde a sua fundação, propõe incentivar, junto aos alunos de graduação e pós-graduação, um amplo espaço de incentivo à pesquisa e oportunizar visibilidade aos trabalhos de discentes das mais variadas instituições universitárias do país [e do exterior]. Para que o diálogo não se baste à produção filosófica isolada, o espaço da revista se abre para a pluralidade que a filosofia oportuniza em seus diversos caminhos, sem se esquecer do rigor e da qualificação do debate.

    Prova de que a revista tem se consolidado foi o grande número de textos submetidos à seleção: o/a leitor/a tem à disposição uma variedade de temas e autoras/es. Para que as leituras sejam localizadas, os artigos serão minimamente apresentados. Menos uma resenha de cada um dos textos, mais um convite ao pasearse pelos diversos problemas e perspectivas que esta edição traz à tona.

    Na primeira seção, iniciamos os trabalhos com um debate caro a toda filosofia política, Locke e a tensão entre governo e sociedade civil [por Darley Alves Fernandes]. Na tentativa de resgatar a importância de Auguste Comte na filosofia das ciências, os principais de seus conceitos são reavaliados pela/os autora/es [Denis Paulo Goldfarb; Domingos Gomes Rodrigues; Onofre Crossi Filho; Rita de Cássia Foelker] no texto A filosofia da ciência em Auguste Comte: Desvencilhando o pensamento comtiano de mal-entendidos históricos. O artigo intitulado Fusão de horizontes: Traços fundamentais da ontologia de Hans-Georg Gadamer [por Gabriela Miranda Zabeu] se compromete a trabalhar as estruturas hermenêuticas e fenomenológicas necessárias para compreender a conjuntura da ontologia gadameriana. Em seguida, no âmbito da lógica, temos a respeito da natureza de suas investigações, o artigo intitulado Sobre Tarski: Acerca da consequência lógica [por Hermógenes Hebert Pereira Oliveira]. O tema da angústia, notadamente filosófico, inaugurado nas considerações do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, é discutido no trabalho Liberdade e angústia em O conceito de angústia de Kierkegaard [por Jadson Teles Silva]. Por fim, completando esta primeira seção, a filosofia sartreana é abordado no artigo O projeto fundamental do para-si: Uma análise de um possível ser consciente (o em-si-para-si) no pensamento de Sartre [por Polyelton de Oliveira Lima].

    Na Seção Especial, contamos com o artigo elaborado em conjunto, O eu impertinente: Romantismo, Eu agonal e filme de gângster, fruto do projeto de estudos Kinosophia, coordenado pela professora Carla Milani Damião. O artigo discute a questão do retorno do herói e do trágico na modernidade, relacionados à filosofia do cinema, foco dos estudos no grupo. Expomos na última seção, normalmente destinada aos trabalhos selecionados na Semana de Filosofia, o trabalho apresentado em 2012, Foucault genealógico: Considerações de método para a possibilidade de uma análise do poder. Neste texto, o autor [João Lourenço Borges Neto] apresenta o desenvolvimento em Foucault, sobretudo por inspiração nietzschiana do método genealógico, de condições para estabelecer um diagnóstico do poder.

     

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    DOSSIÊ "BIOPOLÍTICA"

    Desde a escolha seleta da capa do presente número, orientamos a revista ao Dossiê inspirado no "III Colóquio de Biopolítica. Violência e Estado de Exceção", que foi realizado no mês de dezembro em Goiânia. Ao Colóquio, que com sucesso objetivou dar visibilidade e consolidar as discussões que já aconteciam no grupo de estudos de Biopolítica há seis anos, ampliamos o debate e o trouxemos até a edição.

    Buscando a análise da política pautada pela crise profunda do mundo contemporâneo, trazemos para o Dossiê desta edição o tema da Biopolítica: Violência e Estado de Exceção. Tal temática tornou-se muito estudada, principalmente pela obra do filósofo italiano Giorgio Agamben, influenciada profundamente por filósofos tais como Michel Foucault, Hannah Arendt, Walter Benjamin. O paradigma da discussão biopolítica encontra-se ao final de A vontade de saber, em A história da sexualidade de Michel Foucault, onde o Estado, no limiar da modernidade, inclui em sua gestão o cuidado para com a vida natural, nuda vita, através dos mecanismos e cálculos do poder estatal.

    Este é o paradigma político da modernidade. O ingresso da zoé na esfera da polis, a politização da vida nua transformou radicalmente as categorias político-filosóficas do pensamento clássico. Um enigma que, de acordo com Agamben, parece ser resolvido somente em categorias biopolíticas. Nesta zona de indiscernibilidade entre política e vida, resta que o político saia de sua ocultação e restitua a sua vocação prática. A atualização do pensamento de Agamben através da convergência de Arendt e Foucault, nos faz pensar se a produção de um corpo biopolítico não seria a contribuição original do poder soberano. A exemplo da VIII tese Sobre o conceito de história de Walter Benjamin, onde “a tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção em que vivemos é na verdade a regra geral”.

    Reconhecendo o entusiasmo da equipe em montar o Dossiê e na apresentação da temática, a edição segue com os textos que foram apresentados no Colóquio. Uma batalha urbana: Poder e resistência na cidade do Rio de Janeiro [por Erick Araujo de Assumpção e Fermin Roland Schramm] nos mostra como o problema da biopolítica está em profunda consonância com a realidade contemporânea. No texto Quando a linguagem vira ruído: Violência real em tempos de blá-blá-blá virtual [por Pedro Lucas Dulci], mais uma demonstração de como, subliminarmente, os espaços de exceção e seu duplo vínculo paradoxal atingem os mais variados problemas da vida humana. A relação entre os modos de subjetivação presentes no contexto do biopoder e o capitalismo contemporâneo moldam o trabalho A gestão da vida capital e a constituição do homo dispensatio [por Rogério Luis da Rocha Seixas]. A tese de Peter Sloterdijk em resposta à Carta sobre o humanismo de Heidegger fundamentam o artigo A crise do humanismo: Contribuições à biopolítica [por Wanderley J. Ferreira Jr.].

    Por fim e não menos importante, apresentamos como encerramento do Dossiê a entrevista com Castor Ruiz, professor da Unisinos/RS, um dos principais estudiosos da temática da biopolítica na atualidade, intitulada A vida humana, um problema filosófico. A entrevista [feita por Carmelita Brito e Rosângela Chaves] responde a temas pertinentes a toda problemática biopolítica de nossos tempos e apresenta, com clareza didática, mas sem perder o rigor conceitual, uma boa introdução ao tema para os interessados no assunto e leitores de primeira viagem. O professor Castor esclarece questões tais como: o método genealógico e arqueológico, e daquilo que ele chama de arqueogenealógico; a sacralidade da vida humana, um dos principais assuntos de seu estudo não poderia ser deixado de lado; esclarecimentos acerca do paradoxo e da aporia dos estudos da biopolítica; a atualidade do conceito biopolítica e seus principais desdobramentos, tanto nas considerações de Foucault, quanto nas de Agamben; comissão da verdade no Brasil, memória e as ditaduras da América Latina do século XX.

     

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    Neste ano em que a revista completará quatro anos de existência, renovando a participação dos estudantes, damos boas vindas aos novos membros, Fernando Ferreira, Leonardo Siqueira Gonçalves e Willian Bento Barbosa, que integram a equipe aos já apresentados Heitor Pagliaro, Luana Lopes Xavier, Nádia Junqueira Ribeiro e Suélen Rosa de Castro, todos de fôlego renovado para mais um lançamento. Além disso, considerando a importância de estabelecer diálogo entre revistas estudantis, informamos que a Inquietude estreitou os laços e estabeleceu parceria com a Pólemos (Revista de Estudantes de Filosofia da UnB), o que já resultou em uma profícua troca de informações em mesa-redonda realizada em Brasília, ainda em 2012.

    Para publicação desta edição, mais uma vez nos utilizamos dos ares inspiradores da cidade de Goiás, e nos integramos junto aos eventos II ENEPEFIL - Encontro Nacional de Ensino e Pesquisa em Filosofia e IV Eu Penso - Encontro dos Estudantes de Filosofia da Cidade de Goiás. Tal proposta teve o objetivo de atualizar o vínculo necessário entre Ensino, Pesquisa e Extensão, no âmbito da filosofia, aproximando ainda mais a revista de seu alvo principal, fundamentalmente discente.

    Por fim, os agradecimentos àquelas pessoas que tornaram possível mais um lançamento da Inquietude. Agradecemos às/os professoras/es dos cursos de Graduação e de Pós-Graduação em Filosofia da UFG, às professoras editoras Adriana Delbó e Júlia Sebba Ramalho Morais, a toda a Equipe Editorial, ao suporte técnico de Renato Mendes Rocha e à diagramação de Pedro Labaig; às/os autoras/es dos textos, ao Grupo de Estudos de Biopolítica, que em consonância com a revista, auxiliou o encaminhamento do Dossiê, juntamente com as/os autoras/es da Seção Especial e demais membras/os e colaboradoras/es da revista. Nossos agradecimentos especiais às/os pareceristas que analisaram nossos textos; sem elas/es, esta edição seria impossível.

    Convidamos o/a leitor/a ao desassossego, renovamos o convite para inquietar-se.

     

    A Edição

  • v. 3 n. 1 (2012)

    Com grande fôlego trazemos a público este quinto número de Inquietude. Entrando em seu terceiro ano de existência, a revista se estabelece como um veículo de produção e difusão de ideias de jovens filósofas/os/es que, inquietas/os/es, anseiam por serem ouvidas/os/es. Esta edição é sintoma de tal inquietação, uma vez que tivemos a oportunidade de receber e selecionar, mais uma vez, um grande contingente de textos de estudantes/ies de graduação e pós-graduação das mais diversas universidades do país. Este número conta, pois, com oito artigos de autoria discente, uma publicação especial coordenada pela professora Carla Milani Damião (UFG) em conjunto com estudantes/ies do Grupo de Estudos Kinosophia, uma entrevista com o professor Vladimir Safatle (USP) e os resumos das dissertações defendidas no Programa de Pós-Graduação da UFG em 2011.

    O/A/Ê leitor/a/e poderá observar no atual número uma discussão em torno do conceito heideggeriano de Dasein, onde a autora [Eliana Borges da Silva] analisa o modo como Heidegger opera a destruição, ou desconstrução, do conceito tradicional de existência, especialmente abordado pela ontologia da Idade Média. Ainda no pano de fundo fenomenológico-existencial da filosofia contemporânea, encontramos um artigo [de Aron Pilotto Barco] sobre Husserl que analisa o sentido e as diversas nuances do termo “agora” na teoria husserliana. Sabemos que a filosofia de Heidegger influenciou em certa medida não somente a fenomenologia, mas também a hermenêutica contemporânea. Neste registro, encontramos na presente edição uma abordagem [de Filipe Silveira de Araújo] sobre a experiência estética no pensamento hermenêutico à luz da filosofia de Gianni Vattimo e das interlocuções gadamerianas.

    Por outros terrenos da filosofia contemporânea, a pessoa leitora se deparará com a problemática do conceito de intencionalidade em Filosofia da Mente abordada [por André Rosolem Sant'Anna] através da perspectiva de John Searle e Daniel Dennett. E, em solos mais diversos, poderá fruir da análise [de José Gilardo Carvalho] do conceito de violência-poder na filosofia de Walter Benjamin, bem como da noção foucaultiana de governamentalidade [por Leandro Alves Martins de Menezes].

    Indo para a filosofia moderna, um texto [de Filicio Mulinari] sobre Kant nos convida a adentrar no período pré-crítico, onde os primeiros pensamentos kantianos já esboçavam importantes argumentos posteriores sobre o conceito e o predicado de existência. E, finalmente, temos um texto sobre Rousseau, onde o autor [Heitor Pagliaro] investiga a concepção de direito do filósofo e busca analisar até que ponto podemos qualificar sua teoria de jusnaturalista.

    Na presente edição, contamos com a primeira de uma série de publicações especiais relativas ao curso proferido pelo professor Josef Früchtl na Faculdade de Filosofia da UFG em agosto de 2011. O curso ministrado baseou-se em seu livro O Eu impertinente. Uma história heroica da modernidade e foi traduzido e discutido pelo Grupo de Estudos Kinosophia, coordenado pela professora Carla Damião (UFG). O resultado deste estudo e discussão são três artigos que a Inquietude tem a honra de publicar e divulgar. O primeiro desta tríade intitula-se Modernidade, subjetividade, Hegel e o Western e aborda sobretudo a associação entre a ideia do eu filosófico à figura do herói encontrada em alguns gêneros cinematográficos.

    Na ocasião do XIV Festival Internacional de Cinema Ambiental (FICA), que ocorreu na Cidade de Goiás de 26/06 a 01/07, tivemos a oportunidade de travar um instigante diálogo com o professor Vladimir Safatle da Universidade de São Paulo (USP). Na entrevista, tratamos de temas atuais, tais como a greve das/os/es professoras/es/ies das Universidades Federais, o caso Cachoeira, bem como de temas como política e cultura.

    A publicação desta edição é fruto de um intenso trabalho de toda a Equipe Editorial que, aliás, foi significativamente renovada. Na edição passada nos despedimos de nossa editora executiva, Carmelita Brito, e de nosso editor chefe, Adriano Correia. Em seus lugares, respectivamente, agora contamos com a colaboração de Júlia Sebba (pelo Curso de Filosofia da Cidade de Goiás) e Adriana Delbó, da Faculdade de Filosofia da UFG. Integrantes discentes que vêm acompanhando este projeto desde a primeira edição também se despediram de nós no número passado e recebemos, então, quatro novos membros para revigorarem com suas ideias e impulsos nosso trabalho. Nossos sinceros agradecimentos a Caius Brandão, Marcela Castanheira, Renato Mendes e Wigvan Pereira pela importante contribuição com Inquietude e nossas boas vindas aos novos componentes: Heitor Pagliaro, Luana Xavier, Nádia Junqueira e José Ramos.

    Este número vem a público em meio à greve que se alastra pelas Universidades Federais em todo o país. É, portanto, com dificuldades que conseguimos lançar esta edição. Por respeito às pessoas autoras que nos enviaram e confiaram seus textos e por respeito aos nossos prazos e calendários estabelecidos, publicamos este número – mesmo em tempo de negociações e reflexões políticas das pessoas docentes e servidoras das IFES. O nosso já tradicional evento de Lançamento, organizado a cada nova edição, não foi realizado na ocasião deste número devido à paralisação das atividades acadêmicas na UFG.

    Enfim, gostaríamos de agradecer a todos/as/es aqueles/as/s que contribuíram para a execução desta edição. Às/os/es professoras/es/ies pareceristas que avaliaram com atenção os textos a nós submetidos, às/os docentes da Faculdade de Filosofia (FaFil) e Curso de Filosofia do Campus de Goiás pelo apoio e colaboração, à professora Carmelita que continua sempre por perto nos auxiliando nesta caminhada e, claro, às/os autoras/es que por ora publicam seus textos e aquelas/es/s que nos enviaram seus artigos. Convidamos toda a juventude inquieta para novas submissões – sem isso nosso projeto não se sustentaria.

    Com um último convite, gostaríamos de encerrar este editorial, chamando a pessoa leitora para iniciar seu trajeto contemplando a figura que abre esta edição: trata-se de uma pintura, intitulada “O Problema”, de Pedro Labaig – jovem pintor que integrara nosso corpo editorial nas duas primeiras edições. A pintura nos puxa para pensar qual o sentido do filosofar sem o problematizar, qual o sentido do filosofar que não se atormenta com aquilo que nos toca. A figura nos chama a recolher sobre nós mesmas/os/es e a nos debulhar sobre aquilo que nos interpela – este é o exercício do filosofar inquietante que o/a/ê leitor/a/e fará na sequência. Boa (e inquietante) leitura!

    Nos despedimos com fôlego renovado para os próximos números e encontros.

     

    A Edição

  • v. 2 n. 2 (2011)

    Quanto tempo é necessário para que algo que plantamos dê seus mais belos frutos? Nós, da Inquietude, estamos certas/es/os de que os resultados da atividade do espírito não demoram a vicejar e aparecer; mas, ao mesmo tempo, não podemos deixar de esperar (junto com Nietzsche) que a passagem do tempo os deixe “mais maduros, mais claros, fortes, perfeitos!”. Passados dois anos da publicação de seu primeiro número, a revista se orgulha de chegar ao seu quarto número consolidando sua função de divulgar trabalhos acadêmicos de autoria discente, combinando a inquietude – típica da juventude e da filosofia – com o rigor esperado na academia e que se adquire com a experiência (oxalá essa combinação benfazeja se mantenha na revista ainda por muito tempo!).

    Dentro desse quadro é que se pincela esta nova edição, marcada pela pluralidade de perspectivas, com vários artigos partindo dessa alteridade para formar um núcleo comum de investigações sobre o que constitui a filosofia, o que caracteriza sua linguagem e qual sua relação com a linguagem do mundo. A alteridade - aliás, nossa alteridade latino-americana e brasileira, se é que esse território possa ser claramente demarcado - é o tema de um dos artigos dessa edição, que procura [por Elzahrã Radwan Osman] o espaço de uma identidade do pensamento brasileiro. O problema da relação do pensamento com qualquer linguagem, por outro lado, e da relação destes com o mundo, é abordado em um artigo [de Diogo Bogéa] que se propõe a explorar as reflexões nietzschianas sobre a relação da metáfora com o discurso retórico e com a linguagem lógica e conceitual.

    Por outro caminho e método (caminho e método é uma tautologia, mas nos permitimos a expressão devido à pertinência da ênfase), enveredam outros dois artigos desta edição, mesmo que se voltem para problemas aparentados. Um deles [por Jeane Vanessa Silva] verifica se a lógica epistêmica é capaz de estabelecer um ponto arquimediano para o conhecimento, através da semântica dos mundos possíveis; ou, em outras palavras, se a análise exaustiva das possibilidades relevantes de configuração da realidade, verificadas por um agente epistêmico em dada posição, permite estabelecer condições seguras para o conhecimento. Já o outro artigo ao qual nos referimos [de Gabriel Cardoso Galli], procurando resguardar exatamente a fronteira entre o conhecimento de tipo propositivo e os juízos de valor ético, analisa a posição (e importância) desses enunciados “desprovidos de sentido” (isto é, os emitidos pela Ética) na filosofia do primeiro Wittgenstein.

    É em um registro diferente que se encontra a filosofia política, sempre que esta se propõe a analisar o mundo e, ocasionalmente, a sugerir formas de agir sobre ele; é este, também, o âmbito das reflexões do artigo [de Daniel Silva Barbosa] que publicamos nesta edição sobre as causas e formas de mitigação do pauperismo, a partir das reflexões de Alexis de Tocqueville. Ora, sugerir formas de agir sobre o mundo pressupõe uma forma de valorar as ações; mas em que termos pode ser feita essa valoração? Uma das muitas respostas a essa questão é apresentada também nesta edição, através da publicação da tradução [por Janos Biro] de texto inédito do prof. Paul Boghossian, da Universidade de Nova Iorque, em que este se propõe a demonstrar a aporia da posição que ele denomina “relativismo moral”.

    Analisar o âmbito possível da ação política (ou em que esta se torna impossível) foi uma das tarefas que a filósofa e teórica política Hannah Arendt se propôs. Nesta edição, estamos lançando um Dossiê temático em comemoração aos 60 anos de lançamento da obra Origens do totalitarismo. A passagem de meio século, verificamos com pesar, não retirou a atualidade da obra. Por trás das análises específicas que o rigor da historiografia possa ter contestado parcialmente ao longo do tempo, o que se observa aí é uma tentativa de estabelecer um discurso sobre o que somos na atualidade, como se constitui o homem e a política contemporâneos. A foto escolhida para a capa desta edição – os trilhos da estrada de ferro que outrora levara milhões de seres humanos à morte em campos de extermínio – é também, em algum nível, um aviso: as estradas que nos levam aos destinos mais terríveis ainda estão em aberto; é preciso manter a lembrança, não para ressentir, mas para saber até que ponto estamos, ainda, na mesma direção.

    Para encerrar este Editorial agradecemos a todas as pessoas que tornaram essa edição (e seu Dossiê) possível; a Equipe Editorial, as colaborações (tão cruciais no trabalho de diagramação, revisão, layout, divulgação), pareceristas dos artigos, autorias e tradutores dos textos enviados e o apoio da PROEC-UFG. Esperamos que o resultado desse trabalho coletivo seja, para cada um/a/e de nossos/as/es leitores/as/ies, produtivo e agradável. Boa leitura.

     

    A Edição

     

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    DOSSIÊ "ORIGENS DO TOTALITARISMO - 60 ANOS"

    Em uma carta enviada ao filósofo Karl Jaspers, datada de 14 de maio de 1951, pouquíssimo tempo passado da publicação da primeira edição de Origens do totalitarismo, Hannah Arendt indaga ao seu mestre e amigo: “Eu lhe escrevi contando que há uma semana me tornei capa de revista e tive que olhar para mim mesma em todas as bancas de jornal?” (Elisabeth Young-Bruehl, Hannah Arendt: por amor ao mundo, 1997, p. 12).

    A perplexidade da autora com o repentino sucesso e a ampla circulação, na época, de seu recente e primeiro livro publicado, talvez possa ser incompreensível e indiferente ao nosso olhar retrospectivo. Sessenta anos adiantados no tempo, já conhecemos da importância histórica e da força intelectual de tal obra que fora terminada no outono de 1949, apesar de todas as condições que desfavoreciam a produção de um estudo histórico-filosófico-político tão aprofundado. Origens do totalitarismo foi escrito por uma refugiada europeia, radicada nos Estados Unidos, ainda no fervor dos acontecimentos da II Grande Guerra (embora deles distante “um oceano Atlântico” para manter sua própria segurança, devido à ascendência judaica de Arendt). O manuscrito foi concluído quatro anos depois do fim do confronto mundial e da consequente derrota da Alemanha hitlerista, e quatro anos antes da morte de Stalin, num tempo de escassas e alfombradas informações, num contexto em que falar dos acontecimentos trágicos do século XX já parecia ser tabu e no qual a noção de futuro cindia-se em duas possibilidades: o indescritível temor de profecias sobre a ruína final dos tempos humanos e a incomensurável esperança diante do término de uma passagem sombria da História humana.

    Dessa forma, além de ter sido, certamente, pioneira na análise dos eventos, das origens e dos elementos totalitários – que Arendt identifica tanto na Alemanha nazista quanto na Rússia stalinista, gerando inúmeras polêmicas ainda hoje – a autora também foi singular em seu pensamento, em suas teses e em seus exames formulados a partir das ocorrências factuais que compunham o cerne de sua época, “o acontecimento central do nosso mundo” (A dignidade da política, 2002, p. 39).

    A tentativa de compreender o totalitarismo em sua assustadora novidade, bem como as questões que a autora mesma se coloca, (O que havia acontecido? Por que havia acontecido? Como pôde ter acontecido?) abrangem diversas áreas de conhecimento para além da exclusividade filosófica, como a História, as Ciências Sociais, as Comunicações, a Psicologia, o Direito, etc.

    É tendo isso em vista que, em sua quarta edição, a Inquietude apresenta o Dossiê temático “Origens do Totalitarismo - 60 anos”, com a intenção de suscitar e reavivar discussões sobre a primeira obra editada de Hannah Arendt. Sessenta anos depois, talvez ainda seja preciso meditar por que essa obra permanece tão atual. Certamente, se não podemos “dar uma resposta positiva sobre a possibilidade da emergência de um regime totalitário hoje”, isso não significa afirmar que “ele [não] seja possível no terreno mais geral das possibilidades humanas, [já] que vários fatores nos conduzem a temer que as condições atuais se assemelhem a outras nas quais essa experiência aconteceu” (Newton Bignotto, Origens do totalitarismo – 50 anos depois, 2001, p. 44).

    Incluído no Dossiê se encontra Totalitarismo, texto inédito de Arendt, que reúne anotações para uma palestra realizada em 1954, traduzido pelo Prof. Dr. Adriano Correia, da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Goiás (FaFil-UFG).

     

    Igor Vinícius Basílio Nunes

  • Caderno de resumos - XV Seminário Interno do Programa de Pós-Graduação em Filosofia - UFG

    A Revista Inquietude tem o prazer de divulgar o Caderno de resumos - XV Seminário Interno do Programa de Pós-Graduação em Filosofia - UFG, evento ocorrido entre os dias 04 e 07 de novembro de 2025. O Seminário Interno do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Goiás (PPGFil-UFG) é um evento anual que visa, por meio da exposição e do debate, aprimorar as pesquisas realizadas pelas(os) discentes do PPGFil e dos acadêmicos externos que desejam contribuir com apresentações e debates filosóficos. Nesse evento, discentes apresentam suas pesquisas em andamento e recebem comentários e sugestões de docentes e colegas da UFG. Neste ano, especialmente, o Seminário recebeu o título de Entre ideias e comemora sua XV edição, consolidando e confirmando a excelência da pesquisa filosófica na UFG.

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