Vol. 2 Núm. 2 (2011)

					Ver Vol. 2 Núm. 2 (2011)

Quanto tempo é necessário para que algo que plantamos dê seus mais belos frutos? Nós, da Inquietude, estamos certas/es/os de que os resultados da atividade do espírito não demoram a vicejar e aparecer; mas, ao mesmo tempo, não podemos deixar de esperar (junto com Nietzsche) que a passagem do tempo os deixe “mais maduros, mais claros, fortes, perfeitos!”. Passados dois anos da publicação de seu primeiro número, a revista se orgulha de chegar ao seu quarto número consolidando sua função de divulgar trabalhos acadêmicos de autoria discente, combinando a inquietude – típica da juventude e da filosofia – com o rigor esperado na academia e que se adquire com a experiência (oxalá essa combinação benfazeja se mantenha na revista ainda por muito tempo!).

Dentro desse quadro é que se pincela esta nova edição, marcada pela pluralidade de perspectivas, com vários artigos partindo dessa alteridade para formar um núcleo comum de investigações sobre o que constitui a filosofia, o que caracteriza sua linguagem e qual sua relação com a linguagem do mundo. A alteridade - aliás, nossa alteridade latino-americana e brasileira, se é que esse território possa ser claramente demarcado - é o tema de um dos artigos dessa edição, que procura [por Elzahrã Radwan Osman] o espaço de uma identidade do pensamento brasileiro. O problema da relação do pensamento com qualquer linguagem, por outro lado, e da relação destes com o mundo, é abordado em um artigo [de Diogo Bogéa] que se propõe a explorar as reflexões nietzschianas sobre a relação da metáfora com o discurso retórico e com a linguagem lógica e conceitual.

Por outro caminho e método (caminho e método é uma tautologia, mas nos permitimos a expressão devido à pertinência da ênfase), enveredam outros dois artigos desta edição, mesmo que se voltem para problemas aparentados. Um deles [por Jeane Vanessa Silva] verifica se a lógica epistêmica é capaz de estabelecer um ponto arquimediano para o conhecimento, através da semântica dos mundos possíveis; ou, em outras palavras, se a análise exaustiva das possibilidades relevantes de configuração da realidade, verificadas por um agente epistêmico em dada posição, permite estabelecer condições seguras para o conhecimento. Já o outro artigo ao qual nos referimos [de Gabriel Cardoso Galli], procurando resguardar exatamente a fronteira entre o conhecimento de tipo propositivo e os juízos de valor ético, analisa a posição (e importância) desses enunciados “desprovidos de sentido” (isto é, os emitidos pela Ética) na filosofia do primeiro Wittgenstein.

É em um registro diferente que se encontra a filosofia política, sempre que esta se propõe a analisar o mundo e, ocasionalmente, a sugerir formas de agir sobre ele; é este, também, o âmbito das reflexões do artigo [de Daniel Silva Barbosa] que publicamos nesta edição sobre as causas e formas de mitigação do pauperismo, a partir das reflexões de Alexis de Tocqueville. Ora, sugerir formas de agir sobre o mundo pressupõe uma forma de valorar as ações; mas em que termos pode ser feita essa valoração? Uma das muitas respostas a essa questão é apresentada também nesta edição, através da publicação da tradução [por Janos Biro] de texto inédito do prof. Paul Boghossian, da Universidade de Nova Iorque, em que este se propõe a demonstrar a aporia da posição que ele denomina “relativismo moral”.

Analisar o âmbito possível da ação política (ou em que esta se torna impossível) foi uma das tarefas que a filósofa e teórica política Hannah Arendt se propôs. Nesta edição, estamos lançando um Dossiê temático em comemoração aos 60 anos de lançamento da obra Origens do totalitarismo. A passagem de meio século, verificamos com pesar, não retirou a atualidade da obra. Por trás das análises específicas que o rigor da historiografia possa ter contestado parcialmente ao longo do tempo, o que se observa aí é uma tentativa de estabelecer um discurso sobre o que somos na atualidade, como se constitui o homem e a política contemporâneos. A foto escolhida para a capa desta edição – os trilhos da estrada de ferro que outrora levara milhões de seres humanos à morte em campos de extermínio – é também, em algum nível, um aviso: as estradas que nos levam aos destinos mais terríveis ainda estão em aberto; é preciso manter a lembrança, não para ressentir, mas para saber até que ponto estamos, ainda, na mesma direção.

Para encerrar este Editorial agradecemos a todas as pessoas que tornaram essa edição (e seu Dossiê) possível; a Equipe Editorial, as colaborações (tão cruciais no trabalho de diagramação, revisão, layout, divulgação), pareceristas dos artigos, autorias e tradutores dos textos enviados e o apoio da PROEC-UFG. Esperamos que o resultado desse trabalho coletivo seja, para cada um/a/e de nossos/as/es leitores/as/ies, produtivo e agradável. Boa leitura.

 

A Edição

 

**********************************************************************************************

DOSSIÊ "ORIGENS DO TOTALITARISMO - 60 ANOS"

Em uma carta enviada ao filósofo Karl Jaspers, datada de 14 de maio de 1951, pouquíssimo tempo passado da publicação da primeira edição de Origens do totalitarismo, Hannah Arendt indaga ao seu mestre e amigo: “Eu lhe escrevi contando que há uma semana me tornei capa de revista e tive que olhar para mim mesma em todas as bancas de jornal?” (Elisabeth Young-Bruehl, Hannah Arendt: por amor ao mundo, 1997, p. 12).

A perplexidade da autora com o repentino sucesso e a ampla circulação, na época, de seu recente e primeiro livro publicado, talvez possa ser incompreensível e indiferente ao nosso olhar retrospectivo. Sessenta anos adiantados no tempo, já conhecemos da importância histórica e da força intelectual de tal obra que fora terminada no outono de 1949, apesar de todas as condições que desfavoreciam a produção de um estudo histórico-filosófico-político tão aprofundado. Origens do totalitarismo foi escrito por uma refugiada europeia, radicada nos Estados Unidos, ainda no fervor dos acontecimentos da II Grande Guerra (embora deles distante “um oceano Atlântico” para manter sua própria segurança, devido à ascendência judaica de Arendt). O manuscrito foi concluído quatro anos depois do fim do confronto mundial e da consequente derrota da Alemanha hitlerista, e quatro anos antes da morte de Stalin, num tempo de escassas e alfombradas informações, num contexto em que falar dos acontecimentos trágicos do século XX já parecia ser tabu e no qual a noção de futuro cindia-se em duas possibilidades: o indescritível temor de profecias sobre a ruína final dos tempos humanos e a incomensurável esperança diante do término de uma passagem sombria da História humana.

Dessa forma, além de ter sido, certamente, pioneira na análise dos eventos, das origens e dos elementos totalitários – que Arendt identifica tanto na Alemanha nazista quanto na Rússia stalinista, gerando inúmeras polêmicas ainda hoje – a autora também foi singular em seu pensamento, em suas teses e em seus exames formulados a partir das ocorrências factuais que compunham o cerne de sua época, “o acontecimento central do nosso mundo” (A dignidade da política, 2002, p. 39).

A tentativa de compreender o totalitarismo em sua assustadora novidade, bem como as questões que a autora mesma se coloca, (O que havia acontecido? Por que havia acontecido? Como pôde ter acontecido?) abrangem diversas áreas de conhecimento para além da exclusividade filosófica, como a História, as Ciências Sociais, as Comunicações, a Psicologia, o Direito, etc.

É tendo isso em vista que, em sua quarta edição, a Inquietude apresenta o Dossiê temático “Origens do Totalitarismo - 60 anos”, com a intenção de suscitar e reavivar discussões sobre a primeira obra editada de Hannah Arendt. Sessenta anos depois, talvez ainda seja preciso meditar por que essa obra permanece tão atual. Certamente, se não podemos “dar uma resposta positiva sobre a possibilidade da emergência de um regime totalitário hoje”, isso não significa afirmar que “ele [não] seja possível no terreno mais geral das possibilidades humanas, [já] que vários fatores nos conduzem a temer que as condições atuais se assemelhem a outras nas quais essa experiência aconteceu” (Newton Bignotto, Origens do totalitarismo – 50 anos depois, 2001, p. 44).

Incluído no Dossiê se encontra Totalitarismo, texto inédito de Arendt, que reúne anotações para uma palestra realizada em 1954, traduzido pelo Prof. Dr. Adriano Correia, da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Goiás (FaFil-UFG).

 

Igor Vinícius Basílio Nunes

Publicado: 2011-12-08

Traduções