v. 13 n. 1 (2022): Dossiê Nietzsche e o Feminino

A indiana Gayatri Spivak, em 1985, no livro intitulado Pode o subalterno falar? denuncia o silêncio compulsório na vida das pessoas colonizadas. Naquele momento ela tratava, sobretudo, dos sacrifícios impostos às viúvas. Contudo, o silêncio é uma sobrecarga colocada praticamente em todos os corpos subvalorizados, como se o que eles tivessem a dizer não precisasse ser dito, porque, afinal, falariam sobre aspectos de suas insignificâncias. Conforme tal avaliação preconceituosa, eles deveriam apenas escutar e obedecer. Atualmente, ao menos na realidade brasileira, conhecemos a má avaliação atribuída às vozes de pessoas subalternizadas a partir do termo “mimimi” ou “vitimismo”. Assim se tenta ridicularizar o que é dito por mulheres, pessoas negras, pessoas com deficiências, crianças, pessoas mais idosas etc. As reiteradas tentativas de silenciamento das pessoas que foram subalternizadas é um funcionamento psíquico e político proveniente do autoritarismo covarde de quem se autointitula superior. No que tange o ensino universitário nem sempre é diferente. Professoras e professores falam, escrevem e publicam. Estudantes escutam e, no máximo, reproduzem o que ouvem e leem nas atividades que precisam realizar para aquisição de notas e títulos. Nãoobstante, a Revista Inquietude nasce como a voz de estudantes da Faculdade de Filosofia da UFG que também quiseram publicar o que estudavam, ao invés de estudarem apenas para prestação de contas. E isso se deu antes mesmo da exigência de publicação para que até mesmo estudantes passassem a buscar pontuar seus currículos.
Neste número, a Revista Inquietude apresenta mais uma vez o que estudantes de graduação e de pós-graduação estudaram em disciplinas do curso de Filosofia, na graduação e na pós-graduação, mais especificamente, em disciplinas ministradas pela professora Adriana Delbó a respeito da inserção do que Nietzsche escreve sobre as mulheres no trâmite filosófico para criação de ideais, verdades e subalternidades. As mulheres enquanto gênero inferiorizado pela tradição patriarcal é aqui o tema principal dos artigos publicados.
A doutoranda Luciene Marques de Lima, a partir de Nietzsche, escreve sobre a problemática em torno das possibilidades de vivências necessárias às mulheres para “tornar-se o que se é”, em contraposição à normatividade do gênero denunciada por Judith Butler. Lucas Romanowski, também pós-graduando, apresenta como Nietzsche avalia como diminuição da mulher a exigência masculina de construção da mulher em si, para atender à sua demanda de cientificidade. Patrícia Bagot de Almeida questiona a relação (ou a ausência de relação?) entre direito, poder e feminismo, se pautando em sua pesquisa de mestrado, mas também em seus estudos sobre Carol Smart, para dizer de um limite da ‘justiça’ no que diz respeito a problemas específicos das mulheres.
Kamille Barros de Abreu Silva se movimenta entre passos de “mulher” para tratar de necessárias desconstruções e novas perspectivas para o feminismo, tendo como apoio Nietzsche, Butler e Derrida. A doutora Cristiane Marinho retoma sua leitura do livro de Scarlet Marton, Nietzsche e as mulheres: figuras, imagens e tipos femininos, junto ao que acompanha da pesquisa de Adriana Delbó, para apresentar a diversidade que enxerga possível para indagar o conservadorismo e as contribuições para a emancipação feminina na obra de Nietzsche. Além disso, o mestre em Filosofia Igor Freitas Martins propõe uma vigorante interpretação do aforismo 86 de Além do Bem e do Mal em seu artigo As mulheres, o ideal e o espelho em Nietzsche.
Júlio César Freitas, bolsista PIBIC orientado pela professora Adriana Delbó, antes mesmo de ingressar na pós-graduação, já apresenta um artigo no qual sistematiza sua compreensão de que, no caso de Nietzsche, não se trata de ataque às mulheres, mas da análise da origem do gênero inserida na crítica nietzschiana à metafísica. Também como resultado da pesquisa no PIBIC, Juliana Mamede Melo, junto a sua orientadora, desenvolve um artigo no qual analisa aforismo sobre as ideia de mulher na obra A Gaia Ciência.
Por fim, este número da Revista Inquietude é um convite para que possam acompanhar as elaborações acadêmicas de estudantes, pesquisadoras e pesquisadores que se deram o poder de pensar, falar, escrever e publicar. Que a leitura destes artigos possa contribuir para que o ensino e a pesquisa em Filosofia deixem de criar subalternidades.
Adriana Delbó