Vol. 17 No. 1 (2026)
Cabe-nos agradecer profundamente pelo empenho de todas as pessoas que contribuíram historicamente com a Inquietude e, principalmente, no último quadriênio, visto a evolução da nota qualis da revista, de B3 para A4. É de uma imensa satisfação colher os resultados de tantos esforços somados em conjunto, da confiança e interesse em submeter para publicações conosco e daquelas pessoas que aceitam de bom grado colaborar tal qual membros da revista. Para toda essa comunidade, nossos mais sinceros agradecimentos!
A Edição.
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DOSSIÊ "FENOMENOLOGIA"
Com o presente volume da Inquietude oferecemos aos leitores um dossiê de artigos que se aventuram na tradição fenomenológica. Esta começa com Edmund Husserl e nele sempre se inspira, mesmo quando procura criticamente ultrapassá-lo. A herança de Husserl oferece ainda muitas possibilidades de aprofundamento, nas quais nos permitimos ser seus alunos, como mostram os três artigos que se dedicam a compreender e explicar alguns dos seus problemas. Mas a fenomenologia não está circunscrita à obra de Husserl, ela foi desde o início fecunda ao ser repensada pelos seus inúmeros alunos e estudiosos, como testemunham os artigos dedicados aos outros fenomenólogos, Merleau-Ponty, Levinas e Edith Stein. Além disso, a fenomenologia oferece ferramenta capaz de pensar e ajudar compreender as “coisas elas mesmas”, os problemas da existência e do mundo humano, a grande questão do sentido, que resta por ser esclarecido pela geração atual dos filósofos. Vejamos as contribuições dos autores do presente Dossiê.
O artigo Linguagem, sentido e pensamento na lógica transcendental de Husserl, de Matheus dos Reis Gomes, apresenta um estudo sobre o tema da linguagem em Husserl, na sua relação com a lógica e sentido ou significado ideal para além da materialidade das palavras, enquanto veículo de expressão da verdade racional, estruturando a própria constituição do sentido e sua comunicação intersubjetiva pela qual a realidade objetiva é constituída. A questão do sentido de tudo o que se apresenta a nós, como realidade ou idealidade, é uma das grandes questões da fenomenologia de Husserl.
O artigo da Isabela Carolina Carneiro de Oliveira, Algumas análises sobre a função da modalização na fenomenologia de Edmund Husserl, é um estudo do tema da modalização na fenomenologia husserliana, tema importante na compreensão sobre como se dá o processo de progressão da evidência na teoria da percepção e do juízo. A modalização, segundo a autora, é um grande campo de possibilidade para o ego, a partir da incompletude, unilateralidade e ambiguidade na doação dos objetos ou dos juízos, no processo rumo à evidência através das sínteses de preenchimentos e correções. O artigo, assim, nos aproxima por uma outra perspectiva o interesse da fenomenologia husserliana pela compreensão da verdade, através da busca da evidência.
No artigo de Karine Boaventura Rente, Três argumentos da crítica husserliana à fundamentação naturalista da história, é apresentada a argumentação, encontrada nas obras de Husserl, da crítica em relação à fundamentação naturalista das ciências humanas e, em especial, da história, mostrando a inadequação do paradigma das ciências naturais exatas quando aplicado ao campo dos fenômenos da vida do espírito. A fenomenologia transcendental, na sua orientação para a análise da intencionalidade e das motivações, é apontada por Husserl como fundamento da história e das demais ciências humanas. Oferecer às ciências, entre elas ciências que procuram compreender a realidade humana e social, um auxílio pelo esclarecimento rigoroso dos seus conceitos e relações fundamentais, foi desde o início o objetivo do trabalho de Husserl.
Continuando o tema da relação entre a fenomenologia e as ciências humanas, mas já alargando a fenomenologia em direção aos pensadores que se aventuram além de Husserl, propomos o artigo de Thiago Martins dos Santos Silva, intitulado Não explicar, compreender: Merleau-Ponty e os limites das ciências humanas. Nele o autor reflete sobre a questão da relação entre a fenomenologia e as ciências humanas, ou ciências do espírito, na sua diferença em relação às ciências da natureza, a partir de Merleau-Ponty, leitor e crítico de Husserl, e da distinção elaborada por Dilthey entre explicar e compreender. A fenomenologia e as ciências humanas, na perspectiva do artigo, se enriquecem mutuamente, sendo a filosofia uma consciência da racionalidade, ou sua guardiã, não consciência absoluta, mas intersubjetiva, cultural e historicamente situada, que precisa se compreender, encontrar assim a relação entre o que é “interior” à subjetividade racional e o que lhe é “exterior”.
O artigo de Tark Fraig, A educação e a afecção do infinito: Lévinas filósofo da educação, é um ensaio que pensa a educação a partir da compreensão da alteridade em Levinas, o pensador que se confronta criticamente com Husserl, embora beba dos seus conceitos fundamentais. A educação não é precisamente um tema aprofundado por Levinas, mas este pode oferecer questionamentos interessantes a quem deseja pensá-la fenomenologicamente. Segundo o autor, não se trata, no artigo, de aplicar a filosofia de Levinas à concepção tradicional de educação como formação, com currículos, programas e sistemas já estabelecidos, ou como uma aquisição de comportamentos, repertórios ou saberes específicos, mas de pensar a educação como um “encontro entre heterogêneos”, um encontro focado no outro, no Infinito no outro. O artigo oferece uma leitura crítica da própria filosofia de Levinas, reconhecendo um limite na proposta desta e convidando assim a ir além dos textos de Levinas, explorando o horizonte da abertura de sentido indicado por ele.
O artigo de Wallece José Silva Lima, Relação entre individuação e pessoa nas obras de João Duns Scotus e de Edith Stein, é uma mostra de como a abordagem fenomenológica dos problemas filosóficos é capaz de dialogar com a tradição metafísica clássica. Nomeadamente, a obra de Edith Stein, a eminente e ainda pouco conhecida fenomenóloga formada por Husserl e sua assistente colaboradora, não apenas se serve de ferramenta fenomenológica husserliana para abordar temas não suficientemente explorados pelo Mestre, mas também investiga como esta abordagem comunica com a abordagem da metafísica clássica, esclarecendo fenomenologicamente os problemas metafísicos. No presente artigo, o autor trata do tema da individuação da pessoa, relacionando a compreensão de Duns Escotus e de Edith Stein.
Por fim, o artigo do Daniel Felipe Alves, Psicologia descritivo-fenomenológica da morte é uma interessante tentativa de compreender a morte, o ato de morrer, não a partir de um conhecimento genérico ou da experiência da morte dos outros, mas pela descrição da vivência do morrer acessível na experiência da quase morte, relatada em diferentes estudos. O autor, que se baseia em bibliografia que reproduz os relatos em primeira pessoa de quem viveu a experiência de quase morte do corpo, parte da constatação de que nessas experiências as vivências conscientes são intensas. Isto leva à conclusão de que não podemos identificar a pessoa com o seu corpo e identificar a morte com o desfazer-se do corpo, como se fosse este o desaparecimento da pessoa; a consciência parece não desaparecer com a morte do corpo, o que possibilita, nesses casos extraordinários em que a pessoa volta a se comunicar após a experiência da quase morte do corpo, a análise da vivência consciente durante essa experiência. O artigo é assim uma aplicação das ferramentas da fenomenologia ao estudo de um interessante campo de questões referentes à nossa existência, mostra da fecundidade viva da fenomenologia.
Agradecemos aos autores por suas belas e ricas contribuições e desejamos aos nossos leitores uma rica e instigante vivência de leitura!
Organização:
Prof.ª Dr.ª Martina Korelc
Editora-chefe da Inquietude
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SEÇÃO ESPECIAL
Gostaríamos de introduzir brevemente o conteúdo dos artigos referentes à Seção Especial. O primeiro artigo, de Adriana Oliveira Alves, nos situa no campo da epistemologia social, e investiga a noção de ignorância emocional como uma construção intencional no interior do patriarcado, destacando o papel da culpa como mecanismo de controle e propondo a raiva como potência emancipatória na luta contra as opressões de gênero. Em seguida, Bruno Alonso nos conduz de volta à filosofia estoica, com uma análise da heimarmene e do determinismo cósmico, explorando a complexa relação entre destino e liberdade a partir da interpretação de Crisipo, para quem a liberdade consiste em uma adequada conformidade com a ordem racional do universo.
Adiante, Erike Santos Aristides reflete sobre o problema do mal em Agostinho à luz de sua crítica ao maniqueísmo e de sua apropriação da tradição neoplatônica, apresentando o mal como privação do bem e reafirmando a centralidade do livre-arbítrio na responsabilidade moral das criaturas. Por fim, Samuel Roberto Silva oferece uma introdução sistemática à antropologia filosófica de Blaise Pascal, elucidando os conceitos de grandeza e miséria, bem como de coração e razão, como chaves interpretativas fundamentais para a compreensão da condição humana em sua obra.
A Edição.
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CORPO EDITORIAL FILOSÓFICO-CIENTÍFICO (NOMINATA)
Abimael Francisco do Nascimento (UFC, Fortaleza, CE, Brasil)
Allan Josué Vieira (UFPI, Teresina, PI, Brasil)
Brenner Bruneto Oliveira Silveira (UFG, Goiânia, GO, Brasil)
Daniel Artur Emidio Branco (UFC, Fortaleza, CE, Brasil)
Daniel Rodrigues da Costa (USP, São Paulo, SP, Brasil)
Dario Alves Teixeira Filho (UNIRIO, Rio de Janeiro, RJ, Brasil)
Diogo da Luz (PUCRS, Porto Alegre, RS, Brasil)
Eduardo Dolabela (UFMG, Belo Horizonte, MG, Brasil)
Francisco Eduardo de Oliveira (UFRN, Natal, RN, Brasil)
Grasiela Cristine Celich (UFSM, Santa Maria, RS, Brasil)
Gustavo Santos Giacomini (USP, São Paulo, SP, Brasil)
Halina Leal (USP, São Paulo, SP, Brasil)
José Reinaldo Felipe Martins Filho (PUCGO, Goiânia, GO, Brasil)
Marcelo Rosa Vieira (UFU, Uberlândia, MG, Brasil)
Marcio Silveira Conke (UnB, Brasília, DF, Brasil)
Martina Korelc (PUCRS, Porto Alegre, RS, Brasil)
Patrícia Ketzer (PUCRS, Porto Alegre, RS, Brasil)
Pedro Thyago dos Santos Ferreira (UFRJ, Rio de Janeiro, RJ, Brasil)
Rafael Carneiro Rocha (UFG, Goiânia, GO, Brasil)
Rafaela Ferreira Marques (UFSCAR, São Carlos, SP, Brasil)
Rodrigo Benevides Barbosa Gomes (UEAP, Macapá, AP, Brasil)
Sanqueilo de Lima Santos (UESC, Santa Cruz, BA, Brasil)
Thiago Sitoni Gonçalves (UNIOESTE, PR, Brasil)
Tiago Nunes Soares Schweiger (USP, São Paulo, SP, Brasil)
Victor M. Fernandes (UNISINOS, Vale do Rio dos Sinos, RS, Brasil)
Yuri José Victor Madalosso (UEL, Londrina, PR, Brasil)






